O planeta Terra é vasto e, apesar dos grandes esforços da ciência, ainda existe muito do mesmo para descobrir. Mas o mesmo é limitado em recursos e a curiosidade pelo que existe para além do visível no céu tem gerado cada vez mais entusiasmo. Viagens espaciais não são baratas e por vezes podem colocar em risco a sobrevivência dos tripulantes. Como surgiu a corrida ao Espaço? E porque existe tanto alvoroço pela corrida Espacial? Neste artigo, vamos dar-te a resposta a estas e outras perguntas.

Como começou?

Corria o ano de 1945 quando os Estados Unidos da América largaram a primeira bomba atómica no Japão. O uso de armas nucleares instaurou medo e receio no futuro e das cinzas da Segunda Guerra Mundial nasciam 2 superpotências distintas: por um lado tínhamos a América assente no capitalismo, e por outro a União Soviética com o sistema comunista. Simultaneamente, crescia uma tensão geopolítica entre ambas, cada uma crendo que a outra queria conquistar o mundo, acabando por conduzir à Guerra Fria, um período que viria a durar de 1947 a 1991.

Quando a União Soviética fechou as portas aos Aliados, as suspeitas subiram de tom, com ambas as superpotências a armazenarem e testarem armas nucleares, num desfile atómico a ser noticiado mundo fora. No entanto, a distância física entre ambas não permitiria o transporte rápido nem tão pouco que passasse despercebido. Como colocar uma bomba em território inimigo de forma rápida e eficaz? É aqui que se dá um dos momentos de viragem: é hora de virar as atenções para o espaço e colocar foguetes com armas na atmosfera.

Mas mais do que destruir, os foguetes poderiam até desempenhar um papel importante na espionagem do inimigo. Em 1950, um foguete alemão foi montado com uma câmara, numa tentativa de experimentação científica para validar a possibilidade de usar foguetes para tirar fotografias. Então, mais do que uma corrida ao armamento, a União Soviética e os Estados Unidos entraram em corrida para colocar o primeiro satélite no espaço. Da atrocidade e destruição da guerra nasceria aquela que viria a ser uma das viagens mais interessantes da História.

Momentos de viragem

A corrida ao espaço não se pode caracterizar por uma única vitória de um e derrota de outro. A União Soviética começou com clara vantagem sobre os EUA na corrida, ao conseguir colocar o Sputnik 1 (em outubro de 1957) em órbita da Terra. Este satélite viria a orbitar o nosso planeta durante cerca de 2 meses, completando 1440 órbitas. O feito histórico alcançado pela União Soviética aterrorizou o povo americano, ao saber que o seu potencial inimigo estaria um passo à frente na jornada das viagens espaciais.

Sputnik 1, primeiro satélite artificial a orbitar a Terra.

Para apaziguar os ânimos do seu povo, o presidente americano Eisenhower promove a criação da National Aeronautics and Space Agency (NASA). Em breve, esta viria a elevar a fasquia, anunciando que estava nos seus planos colocar um humano no Espaço antes dos Soviéticos. Os desafios de colocar uma pessoa no Espaço são elevados em quantidade e complexidade e não tardaria a que se começassem a enviar animais nas missões espaciais numa tentativa de aproximar e replicar os resultados obtidos para os humanos.

Em 1959, a NASA recruta 7 pilotos militares para a missão, vistos como heróis pela nação e grupo esse que viria a ser conhecido como Mercury 7. Do lado soviético, também é criado um grupo liderado por Yuri Gagarin, piloto de caça com 26 anos de experiência à data da formação do grupo. Após diversos testes infrutiferos de ambas as partes, dá-se a 12 de abril de 1961 um novo momento histórico: Yuri Gagarin torna-se no primeiro homem no Espaço, numa viagem de 108 minutos. A América não podia ficar atrás e 3 semanas depois colocou Alan Shepard no Espaço, num voo mais curto e a menor altitude que o de Gagarin. Pode parecer um feito menor, mas o estimulo moral que este voo gerou na nação americana criou a chamada "febre do Espaço", a ansia de ir para fora do planeta.

A corrida à Lua

É de recordar que neste mesmo período, as tensões aumentavam na Europa, com a construção do muro de Berlim que separaria o capitalismo do comunismo. John Kennedy propõe que deve ser um compromisso americano ganhar esta corrida e colocar um homem na Lua antes do final da década, fazendo-o retornar em segurança.  Com o projeto Apollo apoiado pelo presidente americano, o mesmo chama a atenção para o programa espacial com vista à aprovação de fundos pelo Congresso.

Com o assassinato de Kennedy em 1963, o povo americano perdeu o interesse na corrida à Lua, questionando as elevadas quantias gastas neste programa.  No ano seguinte, a América envia 184 mil soldados para o Vietname como tentativa de impedir o alastramento do comunismo. A União Soviética não parou e apresenta mais um conjunto de proezas:

  • Primeira sonda a chegar à Lua (Luna 2, 1959)
  • Primeira mulher no Espaço (Valentina Tereshkova, 1963)
  • Primeiro passeio no Espaço (Alexsei Leonov, 1965)

Até agora, a União Soviética esteve sempre um passo à frente da América, ganhando a corrida. A réstia de esperança está com a missão de colocar um homem na Lua. Em janeiro de 1967, um incêndio a bordo da cápsula em terra num teste de rotina tira a vida a 3 astronautas da Apollo.  Com todo o investimento financeiro feito à data, a NASA mostrou determinação em ser a primeira a deixar uma pegada na Lua e recorreu à contratação de Wernher Von Braun, um antigo nazi engenheiro de foguetes e inventor do primeiro míssil balístico V-2.

Depois de um ano de 1968 complicado para ambas as superpotências, a NASA anunciou que iria tentar ir à Lua até ao final do ano. A missão Apollo 8 não seria a de aterrar, mas sim orbitar e regressar em segurança. A 21 de dezembro, esse sonho é concretizado e o foguetão Saturno V descola em direção à Lua. Finalmente, a América consegue alguma pontuação nesta corrida, obtendo os primeiros homens a orbitar a Lua e a primeira fotografia da Terra tirada da Lua, conhecida como "Nascer da Terra".

"Nascer da Terra", primeira fotografia da Terra tirada a partir da Lua, na missão espacial Apollo 8. 

Apenas 7 meses depois deste feito histórico, Neil Armstrong pisa solo lunar pela primeira vez a 20 de julho de 1969. Mais de 500 milhões de pessoas assistiram ao momento que viria a inspirar toda a geração seguinte. Os 3 anos subsequentes colocaram mais 10 americanos na superficie lunar, ao passo que a União Soviética haveria abandonado esta corrida.

Como surgem as Estações Espaciais?

Apesar dos Soviéticos terem abandonado a corrida à Lua, não quer dizer que tenham desistido da corrida espacial. Pelo contrário, em 1986 a ambição dos mesmos voltou-se para ter um complexo permanentemente habitado em órbita, a Estação Espacial Mir, feito esse alcançado e com a permanência do astronauta Sergei Krikalev. A queda da União Soviética e o fim da Guerra Fria deram então espaço para a cooperação entre nações.

No ano de 1998, inicia-se a construção da primeira Estação Espacial Internacional (EEI).  Não só é o maior objeto construído pelo ser humano, como também o mais caro, num custo estimado de 120 mil milhões de dólares. Para a mesma, houve contributos dos Estados Unidos da América, Europa, Canadá, Rússia e Japão. Mais do que um feito histórico, a EEI tornou-se um símbolo de colaboração internacional e de esperança para o novo milénio, assim como de passos mais ambiciosos. Atualmente existem 15 Estações Espaciais Internacionais com capacidade de lançamento independente

O futuro

Em 2019, a NASA anunciou uma missão mais ambiciosa: levar o Homem a Marte em 2030. Se os desafios para chegar à Lua foram grandes, maiores obstáculos agora se levantam. Marte está 160 vezes mais longe que a Lua da Terra, numa viagem estimada de 8 meses. Mas tal como a corrida ao espaço nasceu do medo instaurado pela guerra, também o medo por perdermos o nosso planeta nos leva a explorar o que há para lá do nosso planeta.

As crescentes ameaças provocadas pelo aquecimento global, escassez de recursos e muito mais, colocam a humanidade numa corrida que não será de uma nação contra outra, mas sim de uma colaboração de todas contra o relógio. Cabe-nos a nós preservar o planeta que temos, cuidar dos recursos finitos e fazer uso consciente dos mesmos.

Somos apenas uma espécie evoluída de macacos num planeta menos de uma estrela mediana. Mas conseguímos compreender o Universo. Isso torna-nos muito especiais - Stephen Hawking