Nos últimos anos, o avanço da tecnologia permitiu desenvolvimentos e conquistas científicas notáveis. Entre estes desenvolvimentos, encontram-se os robôs, máquinas automáticas que permitem desempenhar tarefas complexas com autonomia ou pouco controlo humano. O seu aparecimento permitiu a que a cultura popular os retratasse como servos de humanos ou assassinos que pretendem superar a espécie humana. Por isso, neste artigo vamos desmistificar as ideias pré-concebidas acerca dos robôs, como surgiram, onde estão presentes e qual o futuro.

Um pouco de história

A palavra "robô" surgiu pela primeira vez em 1920 na peça R.U.R. (Rossum's Universal Robots) do dramaturgo Karel Čapek, cujo nome foi criado pelo seu irmão Josef Čapek. Nesta peça, os funcionários de linhas de montagem eram substituídos e extreminados por máquinas humanóides mais eficientes, cuja constituição era fabricada de matéria sintética e gerando seres próximos a clones humanos. Na conceção atual da palavra, a Robotics Industries Association (RIA, ou Associação de Indústrias Robóticas) descreve um robô como um dispositivo automático que dispensa o controlo (total ou parcial) da intervenção humana e que é capaz de reagir a fatores externos através de mecanismos de retroatividade.

Apesar de só em 192o ter surgido esse termo, já Leonardo Da Vinci havia esboçado um autómato humanóide por volta de 1495, sendo este o primeiro esboço documentado. Só em 1950 estes documentos viriam a ser descobertos, apresentando um autómato em fato de cavaleiro, capaz de mexer os braços, cabeça e maxilar.

Modelo do cavaleiro inspirado nos esboços de Leonardo Da Vinci.

Nas décadas que sucederam a apresentação da peça R.U.R., rapidamente os robôs saíram do campo da ficção para se tornarem uma realidade. Em 1939, surgem alguns protótipos com grande destaque que alimenta a curiosidade em torno deste novo ser tecnológico que estaria a aparecer na ficção e na realidade. Aqui, destaca-se Eletro, o robô que cativou a Feira Mundial em Nova Iorque nesse ano, um robô que nada mais era do que um esqueleto com um conjunto de engrenagens de aço e um motor, cobertos por uma carcaça de alumínio. Podes ver parte do grande lançamento do Eletro no vídeo seguinte.

Leis de Asimov

Nos anos subsequentes, cresceu a popularidade da ficção científica, onde os robôs eram retratados com base na obra Frankenstein, revoltando-se contra os seus mestres e acabando por os destruir. Na década de 1940, Isaac Asimov publicou um conjunto de obras nas quais os robôs eram retratados como máquinas domésticas, fieis aos seres humanos, que em parte contribuiu para afastar um dos maiores receios que os mesmos suscitavam.

Em 1950, Asimov veio a desempenhar um papel importante ao estabelecer um código moral para os robôs, código esse que nos influencia ainda hoje, volvidos cerca de 70 anos. Nas palavras de Asimov, existem 3 regras:

  1. Um robô não pode ferir um ser humano.
  2. Um robô deve obedecer ordens de indivídos qualificados, com exceção se as ordens colocarem em causa a regra 1.
  3. Um robô deve proteger a sua própria existência, excepto se colocar em causa as regras 1 ou 2.

Apesar de fictícias, estas regras serviram de inspiração para que equipas de engenheiros pudessem colocar em prática a criação de robôs com utilidade no mundo real, para lá de toda a ficção até então produzida.

Robôs na Indústria

É no ano de 1961 que é lançado para produção o Unimate, o primeiro robô industrial caracterizado por um braço capaz de alcançar até 2,1m e com utilidade em fábricas ou laboratórios. A elevada destreza do mesmo permitiria o desempenho de tarefas rotineiras com maior eficiência, vantagem essa que a General Motors (GM) se apercebeu dada a crescente procura por automóveis nos EUA.

Depressa, estes robôs passaram a incorporar a linha de montagem da GM e o seu sucesso espalha-se pelo mundo fora. Em 1966, a Nokia começa na Finlândia a produzir braços robóticos para a Escandinávia e Europa Oriental, e 3 anos depois é a vez da Kawasaki os introduzir no Japão. Em 1970, grandes empresas europeias como a Mercedes-Benz, BMW, Fiat e British Leyland já teriam adotado também braços robóticos nas suas fábricas. Desde 1969 a 1981, o Japão incluiu 6 mil robôs nas fábricas de montagem de carros. Por comparação, em 1981 o Reino Unido estaria bem atrás, com uns meros 370 robôs.

A baixa produção de automóveis para a elevada procura no Reino Unido viria a tornar as importações de carros japoneses mais baratos um "must", criando uma crise no setor. No ano de 1983 a célebre Dama de Ferro, Margaret Tatcher, apoiou a modernização das fábricas com robôs, como forma de agilizar a produção e criar mais postos de emprego. Apesar do receio dos britânicos em perder o seu emprego para as máquinas, a industria efetivamente conseguiu produzir mais e tornar-se competitiva, o que acabaria por gerar ainda mais empregabilidade.  

Quando é que os robôs ganharam vida?

No sentido lato da palavra, os robôs não são seres vivos, logo não podem ganhar vida. Mas é certo que estes robôs para a indústria estão desenhados para tarefas repetitivas e programadas, permanecendo "cegos, surdos e mudos".

É aqui que a Inteligência Artificial (IA) vem ajudar no caminho. Quando na década de 1960 começavam a aparecer os primeiros robôs, investigadores científicos estariam a pensar já um passo à frente, com o objetivo de criar um robô que pudesse guiar-se sozinho com base em IA. A Inteligência Artificial é, em breves palavras, software que se consegue programar com base em dados que recolhe do ambiente que o rodeia. Em 1972, surge o primeiro protótipo de um robô que consegue conduzir-se por uma sala com obstáculos, mesmo havendo mudança imprevista de posição dos mesmos.

Este foi um passo para a criação das fundações da Inteligência Artificial. Posterior investigação e desenvolvimento permitiram criar algoritmos mais sofistificados e em 1990, a IBM criou o Deep Blue, um supercomputador que aprendia a jogar xadrez. Pela primeira vez, em 1997, um computador bate um humano numa tarefa, quando o Deep Blue derrotou o mestre do xadrez Garry Kasparov numa partida.

E é aqui que é importante mais uma lei da computação - a Lei de Moore. De acordo com a Lei de Moore, o número de transistores nos microchips duplica a cada 2 anos, pelo que a capacidade computacional também vai aumentando de forma exponencial. Na década de 90, os transístores já seriam compactos o suficiente para conseguir instalar programas de IA em robôs, tornando-os máquinas com capacidade de decisão.  Este é um marco muito importante na história porque a partir daqui poder-se-iam colocar robôs a desempenhar tarefas demasiado perigosas ou impossíveis para humanos, como desarmadilhar bombas ou navegar pela superfície de Marte.

Robôs no quotidiano

Com todos os progressos feitos da ficção para a realidade, a robótica ganhou enorme destaque, que promete ficar para os anos vindouros. Tal como nas histórias ficcionais do século 20, foi possível desenvolver robôs que chegassem ao mero humano, para as mais diferentes finalidades.

Vejamos o caso concreto do Japão. Os antigos ensinamentos xintoístas ensinam que objetos feitos por homens podem conter espíritos humanos. Em parte, esta crença religiosa ajuda a explicar o investimento dos japoneses na inteligência artificial para desenvolver robôs mais amistosos e com capacidade responsiva. Outro dos fatores que têm motivado o desenvolvimento destas tecnologias é o isolamento social, sendo o robô capaz de ajudar um humano com a solidão. Em 2000, a Honda criou o Asimo, um robô humanoide capaz de até jogar futebol. No ano de 2013, o robô humanoide Kirobo desenvolvido pela Toyota foi enviado para a Estação Espacial Internacional para fazer companhia ao astronauta, ficando em órbita por 18 meses.

Com todo este investimento, o Japão é claro líder no número de robôs de companhia "adotados" por humanos, com cerca de 300 mil robôs espalhados em lares. Para podermos comparar, estes números são cerca de 20 vezes superiores ao número de robôs de companhia no Reino Unido. Entre as principais atividades destes robôs destacam-se:

  • Relembrar a toma de medicamentos;
  • Ensinar e brincar com crianças;
  • Procuram substituir membros familiares ausentes.

Para além de companhia, os robôs servem também propósitos médicos. Apesar de 69% dos americanos se sentirem desconfortáveis por existirem robôs capazes de efetuar cirurgias, atualmente existem cerca de 5 mil braços robóticos Da Vinci a operar pacientes por todo o mundo. Apesar de não terem emoções, os robôs servem também para ajudar pessoas com condições de saúde, como o autismo, a entender e expressar sentimentos.

Outro dos fatores que tem gerado alguma polémica é que alguns humanos estão a substituir as relações humanas por relações com autómatos. De 2016 a 2019, mais de 3700 homens desistiram de criar laços humanos e casaram com hologramas robóticos. Com toda esta mudança de paradigma na forma como interagimos com os robôs, é natural perguntarmo-nos: para que futuro nos dirigimos?

O que ainda está para vir?

Desde a ficção à realidade, os robôs foram criados como auxiliares à espécie humana. Com o desenvolvimento das mais variadas tecnologias, hoje em dia já é possível criar robôs com um aspeto muito próximo ao humano, capaz de imitar expressões faciais e gestos. Mas a robótica não se prende apenas nos robôs humanóides. Uma das grandes expressões deste avanço tecnológico são os carros autónomos.

Gigantes das indústrias automóvel e tecnológica, como Tesla ou Google, têm apostado na criação de carros capazes de dirigir de forma autónoma, mitigando o erro humano causador de acidentes de viação. Em 2018, a Google lançou o seu serviço de táxis de automóveis de condução autónoma, um marco a partir do qual os humanos passaram a confiar a sua vida na estrada aos robôs. Até 2030, estima-se que somente nos EUA circulem cerca de 2o milhões de veículos autónomos.

Tesla, veículo com possibildade de condução autónoma.

No entanto, este avanço tecnológico leva-nos para crises sociais que se sucederão. Por exemplo, a existência de carros autónomos coloca em causa o trabalho de camionistas e taxistas, softwares capazes de analisar grandes quantidades de informação podem alterar o mercado de Wall Street, bem como dos tradicionais traders que não conseguem fazer face a tamanha volumetria de informação analisada por unidade de tempo.

Contudo, vemos que os robôs estão a operar lado a lado com os humanos. Muitos desenvolvimentos têm sido planeados e executados para agilizar as nossas vidas quotidianas. Nas diversas convenções mundiais de tecnologia, têm sido apresentadas cada vez mais soluções de robôs capazes de cozinhar, arrumar e cuidar dos humanos.

Muito se tem discutido sobre o futuro da robótica e a Singularidade - um ponto de inflexão ainda hipotético, no qual se procura entender o que acontecerá quando a IA presente nos robôs ultrapassar a espécie humana. As discussões em torno deste tema não podem providenciar respostas concretas mas sim preparar melhor o futuro para a convivência entre humanos e robôs.

Até lá, temos o privilégio de acompanhar na primeira pessoa todos os avanços que vão surgindo e que permitem melhorar a vida nas nossas casas, nas estradas, nas fábricas e até fora do planeta Terra.